No evento Por Dentro da EGIE3, a ENGIE Brasil apresentou um quadro operacional mais desafiador para as renováveis: projeção de curtailment no SIN de 26% em 2026 e 32% em 2027, com operação futura “mais parecida” aos últimos meses de 2025 — média entre 20% e 25%. O pano de fundo inclui atraso da estação chuvosa, afluências abaixo da MLT em 8 de 10 anos entre 2016 e 2025, maior modulação hidrelétrica por efeito da “duck curve”, expansão acelerada da GD e volatilidade de preços spot por subsistema. Ao mesmo tempo, o armazenamento tem oscilado em patamares historicamente mais baixos, e as cotações de energia convencional para 2026–2028 sinalizam um patamar intermediário frente à volatilidade intradiária.

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Esse diagnóstico não surge isolado: ele dá continuidade à virada operacional ancorada em diversificação e disciplina. Nos resultados do 3T25 que consolidaram a virada operacional, com ramp-up de Assuruá e Assú Sol e 100% de disponibilidade em transmissão, a companhia já evidenciava o papel dos ativos regulados para suavizar a volatilidade de geração e a relevância de contratos de longo prazo. Agora, com a revisão mais negativa do curtailment e a constatação de restrições energéticas e de confiabilidade crescentes desde 2023, a estratégia de aumentar o peso de receitas estáveis se torna ainda mais crítica. A dinâmica setorial — preços no piso em janelas específicas, picos em dias úteis e horas de restrição no Nordeste — reforça a necessidade de flexibilidade operativa, modulação hidrelétrica e, adiante, integração de armazenamento e evolução regulatória.

Nesse sentido, a expansão em transmissão avança em marcos concretos. A autorização do ONS para o início do primeiro trecho de Asa Branca em 26/11/2025 inaugura um sistema de ~1.000 km e eleva a RAP regulada, amortecendo a sazonalidade e o risco de curtailment que pressiona eólicas e solares (o ranking recente mostra 17,3% em eólicas e 28,4% em solar para a ENGIE). Ao distribuir receitas entre geração e redes, a companhia cria um “colchão” de previsibilidade que conversa diretamente com o cenário descrito no evento: afluências abaixo da média histórica, duck curve mais acentuada (variações de 24,6 GW em três horas) e expansão da GD comprimindo o despacho centralizado em determinadas janelas. Essa engenharia de portfólio sustenta Ebitda recorrente enquanto os parques renováveis amadurecem e a agenda de baterias/regulação evolui.

Para perpetuar essa diversificação sob rigor de capital e governança, a companhia estruturou a criação do consórcio para disputar o Leilão de Transmissão Aneel 04/2025, reforçando escala e arcabouço decisório em novas concessões com mecanismos de ring-fencing e comitês independentes. O movimento conecta projeções de maior curtailment ao desenho de um portfólio mais regulado e resiliente, no qual receitas de RAP reduzem a dependência do despacho renovável em horas críticas. Em paralelo, a ENGIE aponta atenuantes econômicos (debate regulatório em curso) e físicos (profundidade da introdução de baterias), sinalizando que a tese de valor combina execução de redes, modulação hidrelétrica em horários de ponta e monetização disciplinada do pipeline, mantendo flexibilidade para atravessar um ciclo de hidrologia pressionada e variabilidade intradiária sem abrir mão de previsibilidade e retorno.

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