Na sexta-feira, 14 de novembro de 2025, a Raízen reportou prejuízo líquido de R$ 2,312 bilhões no 2T25/26. A receita líquida somou R$ 59,9 bilhões (-17,8%) e o EBITDA ajustado foi de R$ 3,35 bilhões (-12,8%). O desempenho refletiu menor contribuição operacional, despesas financeiras maiores pelo aumento do saldo de dívida e da taxa média do CDI, além do efeito de valor justo do ativo biológico. Houve ainda impactos não recorrentes (não caixa) de R$ 1 bilhão com hibernação e alienação de ativos. Por segmento, o EBITDA ajustado foi de R$ 1,85 bilhão em EAB (-26,0%), R$ 1,36 bilhão em Distribuição – Brasil (+24,7%) e R$ 411 milhões na Distribuição – Argentina (-26,7%). A dívida líquida encerrou em R$ 53,44 bilhões (alavancagem de 5,1x), investimentos de R$ 1,69 bilhão (-29%) e fluxo de caixa operacional negativo em R$ 893,7 milhões, com caixa livre aos acionistas positivo em R$ 2,98 bilhões. A administração reforçou o plano de transformação com ênfase em simplificação, eficiência e otimização da estrutura de capital e mencionou expectativa de receber cerca de R$ 3,9 bilhões de desinvestimentos já anunciados.
Operacionalmente, os números confirmam a pressão na frente agrícola e a escolha por rentabilidade sobre volume. O EAB sentiu menor venda de açúcar e etanol e menor diluição de custos, ao passo que a cogeração segue afetada pela menor disponibilidade de biomassa; na Argentina, margens comprimidas pela desvalorização do peso e pela inflação, enquanto no Brasil a disciplina comercial sustentou volumes e spreads. Esse quadro já havia sido antecipado, com moagem maior porém ATR/TCH mais baixos, priorização do mix açucareiro e agenda de redesenho do parque industrial, conforme indicado na prévia operacional do 2T25/26 que expôs pressões de produtividade e priorização do mix açucareiro.
A deterioração do resultado financeiro e a alavancagem em 5,1x tornam central a execução do eixo de liquidez e passivos. O trimestre combinou efeitos não caixa ligados à hibernação/alienação e a perspectiva de entrada de cerca de R$ 3,9 bilhões com desinvestimentos já anunciados, sugerindo reciclagem de capital e foco em retorno. Em paralelo, a empresa vem alongando prazos e preservando colchão de liquidez para mitigar a volatilidade de capital de giro e sustentar a entressafra, movimento coerente com a transformação anunciada e materializado recentemente pela renovação do RCF de US$ 1 bilhão por cinco anos e o alongamento de passivos.
Do ponto de vista de percepção de risco, o mercado seguirá cobrando conversão de EBITDA em caixa após capital de giro e trajetória crível de desalavancagem. A combinação de fluxo de caixa operacional negativo no trimestre e caixa livre ao acionista positivo reforça a necessidade de consistência na normalização do capital de giro e na disciplina de capex, especialmente sob escrutínio das agências que já haviam deslocado o foco para execução e liquidez, desde que a Moody’s Local manteve AAA.br e revisou a perspectiva para negativa.
Na governança financeira, a mensagem de hoje de que os controladores seguem avaliando alternativas para fortalecer a estrutura de capital e que a companhia espera aportes de desinvestimentos conecta-se a um roteiro mais amplo de simplificação, eficiência operacional e seletividade de projetos. Essa via não nasce agora; ela dá continuidade à agenda de funding prudente, preservação do investment grade e redução de complexidade societária que a administração vem reiterando, inclusive com a avaliação de alternativas de capitalização anunciada em outubro, quando descartou reestruturação e detalhou o colchão de liquidez. Para o investidor, o capítulo de hoje amarra resultado, funding e portfólio: a execução dos desinvestimentos e a melhoria operacional precisarão convergir, nos próximos trimestres, para queda tangível da alavancagem e estabilização de margens.







